domingo, 11 de março de 2018

Para encerrar Domingo - Vince Guaraldi

Maestro, pianista, famoso pelas composições para os "Peanuts" [Traduzido no Brasil como Snoopy]. Cadenciado, ritmo dos anos 50/60. Como bom californiano, influência do mambo, e do ritmo castelhano.
Destaque pra várias interpretações de compositores brasileiros.

Quando ouvir o som,
imagino um cubo gigante,
e nele personagens infantis,
dançam, choram, e caem com fumaças...
neva em nova iorque...
1958.

Artist: Vince Guaraldi
Album: Essential Standards
Label: Original Jazz Classics
Genre: Jazz
Year: 2009
1 Softly, As In A Morning Sunrise 00:00
Tracks:
2 The Girl From Ipanema 03:31
3 Moon River 08:51
4 Cast Your Fate To The Wind 14:12
5 Willow Weep For Me 17:22
6 Fascinating Rhythm 22:42
7 Since I Fell For You 25:30
8 The Days Of Wine And Roses 29:54
9 On Green Dolphin Street 35:19
10 Autumn Leaves 41:16
11 Corcovado 45:43
12 Greensleeves (Originally Issued Master Take) 49:08

quarta-feira, 7 de maio de 2014

O homem que se põe ao mundo.

Pobre filho
de pais e mães,
encastelado - onde se esconde - não sabe há quem busca
mas continua a se esconder.

vai os senhos e o
tempo e por lá continua.

Não se despreza a
comodidade - mas
se busca um outro
lado. O lado dos
que estão fora, fora e veem
a luz taumaturga
das coisas que afingem e libertam.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Enxerto Romeno


Madame Chanchanou caminhava pelas ruas fria de Bucareste, ao leste, prédios elevados a oprimiam, junto com a sujeira, as vestimentas Adidas/Cordão de Ouro/Cabelos Xucros de seus habitantes, que falavam em um Russo com Italiano mal dito e sem prazer algum na linguagem. De fato Mme. Chanchanou não era romena e sim francesa, no entanto durante um uma sessão do subúrbio de Clermont Auvergn habitada por trabalhadores braçais de Michellan, vulgo proletários sem escolarização e por seu modo imigrantes Mme. Chanchanou conheceu Estaphan Dedelus. Saíram os dois de uma amostra de cinema Romeno, o filme era uma obra do tempo comunista, com grande propaganda dos prados centrais europeus, com um povo que lutava por sua identidade sem antes esquecer os prazeres da vida. Ambos se dirigiram a um pequeno café na rua N. de N. O Café Du Progress, pediram ambos café, um na frente do outro, sem maniqueísmo. Messie Dedelus retirou um livro de sua bolsa de Couro vulgar sem identificação de fabricação. O livro era Madame Bovary, ao mesmo instante Chanchanou que se achava uma pequena caipira e gostaria de conhecer o mundo, e sem dúvida já havia lido O livro de Monsieur Flaubert ficou surpresa e feliz com o ato do rapaz, muito bonito, vestindo um paletó Cotellet. Com seus olhos direcionados sem premeditação e sem perceber o tempo, ao mesmo tempo que Estephan já havia folheado 5 folhas do romance contorcendo em alguns momentos o rosto como se fosse um jovem aprendendo as primeiras letras, ao pegar um cigarro e no ato de acender olhou diretamente nos grandes olhos desmesurados e marrons como chocolate de Mademoiselle Chanchanou. As vistas se turvaram e típico da juventude sentiram imediatamente ambos um certo desejo de baixar as vistas e certa tremedeira nos antebraços, braços, ombros, panturrilhas e esfriamento dos pés ao contato do chão em seus calçados.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Nunca compreendi muito bem como alguém pode se interessar por uma praia, um pedaço azul de água num infinito de dúvidas, de desejos esparsos, de sol, de sexo frio e desnecessário. Não sei como as pessoas andam as noites nas ruas não sendo nuas, uma loucura andarem sem walkmens ouvindo creep do radiohead enquanto eu escrevo isso e penso em usar aquele alucinógeno branco e penso em minha saúde, e esqueci virgulas e esqueço pontuações dispersas com sons de baixa qualidade 320kbh e não sei o quanto mais um texto qualquer que se perde perde perde perde

ouvir smiths
ouvir minha mãe
ouvir paulinho da viola
ouvir o coração
ouvir o inominável
DIOS DONDE ESTAS SU GRANDESISIMO HIJO DE PUTA?

Mediterrâneo - Não sei mais quando foi

Eu tive tudo

Mais a ti não pude ter,

Doce poesia azul

Como as ondas do oceano,


Mediterrâneo


Ou Recife

Ou Copacabana

Ou sempre só

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Lixo Extraordinário


Regularmente três vezes por semana Luiz Emanuel escrevia um bilhete que se repetia a frase, “a aquele que ler esse pequeno papel saiba que quem o escreve é  um ser só, que como uma maquina antiga sem serventia nesses tempos modernos ou uma pilha a se reclicar escreve à alguém que o saiba em busca de um amor que ao encontrar esse bilhete sem pilhéria e comigo se junte em afinidade eletiva”. Contudo Luiz Emanuel não se apercebia dos bilhetes que punha ao lixo nos dias de coleta, que não sendo como garrafas ao mar logo se perdem na maquinaria e nos entulhos, se tornando se muito xisto para produção de energia nas fábricas aludidas sustentáveis.
Assim os dias foram passando, aos que se interessarem Luiz Emanuel era de V., região com seus quase dois milhões de habitantes, esperava ele que entre estes exatamente 1.751.71 pessoas que o lesse, isso descontando os analfabetos, que poderiam assim mesmo se interessar por uma mensagem e talvez se alfabetizarem para ler, outros tantos que abandonam esse teatro mundano para outras paragens, que seja pela idade carcomida dos velhos ossos, da luta inaudível em becos escuros ou pelo acaso qualquer que nos abandona a própria sorte na atuação sem ensaio como escreveu certa poeta. Além desses a os muitos desterrados que buscam outras direções, e esses são muitos dessa terra de transatlânticos. Por fim os nascidos que são muitos e desses muito novos não se espera tal metafísica de solidão pois ainda estão no útero ou no sobejo materno tão bom em nossas infâncias.
De outro modo não diferente do destino humano os dias foram se sucedendo, os climas quentes, e úmidos, as friagens que para um pobre Alemã é um grandíssimo verão, passava-se os governos dos Trabalhistas e dos Social Democratas e ficava o caminhão do lixo , os bilhetes e sua solidão errante. Mas por medo do destino errar ao seu encontro, resolveu a muito escrever variadamente bilhetes em profusão, nas mais um bilhetinho, mas vários postos, aumento gradativamente, pensou ele que em quantidade maior suas possibilidades aumentariam, contudo há que se der ao fato que escrevia todos a mão, odiava as maquinas amórficas da modernidade que o fazia sentir um certo sentimento de aluir ao todo, queria ao seu modo ser ele mesmo.
Lá pelas tantas passado alguns meses ou anos quiça, ao que nosso personagem novo ao tempo não sentindo muito seu senso da idade que o impregnava a pele e  vendo o telejornal local matutino enquanto escrevia os tantos bilhetes viu e ouviu a noticia “agora meus caros cidadãos de v. , a região metropolitana fará um acordo de reciclagem de lixo, a todos então aqueles que desejarem nesses primeiros meses separem seu lixo selecionado nos dias pares, da seguinte maneira, etc...”. Luiz Emanuel teve uma visão, talvez agora dessa maneira melhor seu amor encontraria em um saco de lixo de papeis seu bilhete, contudo como selecionado e sustentável quereria fazer algo diferente, e assim todos os dias de coleta escrevia algum bilhete relacionando ao seu amor perdido, o primeiro foi do seguinte modo “A aquele que ler esse bilhete de um homem solitário que busca seu amor em um local ao qual o destino encontra, pense que nesses tempos onde todos julgam-se no planeta e em sua salvação com práticas não degradantes ao ambiente guarde esse bilhete e não o desperdice”. Assim foi por uns tempos, em dias que amanheciam chuvosos escrevia “Nesse dia chuvoso ao papel que não se molhar nem a dama que este aqui ler saiba que por um amor busco, etc...”. Outro dia no interim, durante um período lá pelas tantas de chuva e sempre cinza resolveu modificar um pouco e escreveu um poema de Pessoa “O dia deu em chuvoso, Já acordei meio triste de amanhã, E o dia deu em chuvoso...” .E por ai começou a escrever não somente suas percepções como pequenos poemas.
Foi na mudança de governos, “sensato povo que elegeu os trabalhistas, que pensam estes nos mais desfavorecidos, no bem estar de toda população brasileira”. Em outros anos falava dos opositores “Que os sociais democratas modernizem o país e ao oposto do último governo limpem as maquinas de todo inchaço desses políticos e sindicalistas que se aproveitam da burocracia Estatal ,etc...”. Nesses dias politizados escolhia ao fim um poema de Drummond , Da Rosa do Povo ou Sentimento do Mundo, alguns até Maiákoviski. Em outros menos politizados escrevia poemas diversos. Um dia contudo resolveu do próprio punho tentar explorar seu sentimento, sua solidão e tristezas e as vezes sua felicidade que se dava por algo mais sublime, mas como tão pessoais como todos poemas são resolveu para si guardar”. Assim passaram os anos, e Luiz Emanuel terminou a faculdade, começou a dar aulas, continuo a estudar no mestrado, e continuou a mandar as mensagens nos dias de coleta de lixo, já muito desesperançado.
Muitos diriam que Luiz Emanuel era homem feito e poderia achar um amor como fazem todos nas mesas de bar, nos shows de rock ou mesmo com amiga de amigos como comumente ocorre. Mas Luiz Emanuel era um tipo diferente como mesmo ele sabia já nos primeiros bilhetes, ponderava que seu modo estranho era fora do modo comum, meio fechado à seus livros  e suas ideias mirabolantes, fugindo daquilo da moda e assim sendo emborrecido aos outros.
Mas o destino que levou Odisseu de volta para os braços de Penélope fez algo curioso ao nosso macabumzio escritor de lixeiras. Um dia no centro de triagem por um acaso percebeu uma catadora um bilhete com um poema, viu uma beleza tremenda, neste dia  fora escrito um poema de Cora Coralina no dia das mulheres “Que pretendes, Mulher? / Independência, igualdade de condições.../ Empregos fora do lar? /  És superior àqueles / que procuras limitar. Tens o dom divino de ser mãe/ Em ti está presente a humanidade.” . Logo a recicladora fora perguntar de que região veio aquele papel ao logo que coletores que lhe informaram que viera de V. A isso a coletora todos os dias esperava algo que da li viesse, e percebeu que realmente vinham sempre mensagens, poemas e todos esses começou a colar no muro na área de descanso dos trabalhadores . Já com o muro repleto, até que um dia parou de receber os tais bilhetes na reciclagem, mas já fora o bastante para que a todos que liam os poemas se interessassem mais e começassem a reciclar livros e a ler de forma que um dia em um desses passeios escolares para que os jovens saibam a onde vão  parar seus papeizinhos de bala e seus brinquedos perdidos ou quebrados , juntos foram levados com um grupo de professores que acompanhavam os alunos para conhecer uma biblioteca dos trabalhadores do local.  Ao chegar perguntaram de quem fora a ideia, e como aquilo havia chegado nesse modo, que uma logo respondeu que fora a primeira a perceber os poemas e mensagens que chegavam pelos caminhões de coleta, de um certo Luiz Emanuel que titulava um “homem solitário/ em busca de um amor/ no mar da urbe/ que e seu lixo/ que diz a todos/ de verdade quem é./ E nada digam no futuro/ Que por meu amor busquei.” Fora esse último poema escrito e depois a já alguns meses nenhuma mais chegava, contudo tão bom eram os poemas que todos resolveram ler um pouco mais e assim foi indo. A professora de português percebendo os vários poetas dos bilhetes na parede da área de descanso agora tornando em uma biblioteca de qual parte da cidade partiam os bilhetes e se sabiam quem era Luiz Emanuel que escrevia os poemas, a nenhum soube responder mas disse que poderia ficar com o poeminha e se quisesse por ele saber um dia voltasse para falar quem era esse poeta apaixonado dos lixos”.

A professora de literatura, em extrema curiosidade procurou por esse homem de nome Luiz Emanuel, nas listas telefônicas, nas livrarias e bibliotecas, até pela Internet e nada de se deparar com esse homem de alma singela e sincera, que lhe dava certa tristeza em imaginar tão só. Como todas histórias que devem ter lá seu final feliz ou ao menos aceitável como um teatro onde se morre ou se beija a donzela a professora participando de um encontro de literatura na universidade por um acaso se da em uma sala errada onde se discute os contos de Veríssimo , o filho. E um palestrante comenta um sobre um casal que se encontra ao depositar ao lixo, e como o autor trabalha a questão relacionada do que se pode ser vendo o lixo de outro. A professora ficou extasiada e após o termino das comunicações fora conversar com o palestrante e perguntou de forma singela seu nome pois havia de fato gostado muito de sua análise do lixo , do amor e da literatura, Há que esse respondeu que se chamava Luiz Emanuel, professor titular de literatura nesta universidade, do mesmo modo ela respondeu , e você como se chama, Maria Aparecida, professora de português na escola i., e declamou aquele último poema, ao mesmo momento Luiz Emanuel ficou pálido, atônito para saber como havia ela descoberto tal poema, de onde haveria de ter posto a mão nesse bilhete, respondeu então sobre o ocorrido do passeio e de sua curiosidade ao ver os poemas e as mensagens tão sentimentais e verdadeiras. Ao passo que os dois pelo dia afora ficaram conversando na cafeteria até que viessem pedindo para fecharem o local. Nesse ínterim falaram de tudo de suas vidas e nada esconderam como se todas as mensagens fossem ágoras resumidas em um dia, toda sua vida, seus dissabores, sua  solidão , suas leituras dos poetas que como ele amaram e vivera, explicou o porque dos bilhetes ao lixo e de como era antiquado, mas Maria Aparecida gostou de como era Luiz Emanuel, e por muitos conversaram e por outros tantos saíram, e logo por um dia juntaram o que tinham, e começaram a compartilhar seus lixos que pelo que se tinha sabia-se um casal feliz, ainda que em anos eleitorais os trabalhistas e os social democratas dividiam meio a meio o saco de papel com seus santinhos.

domingo, 5 de maio de 2013

Variação do amanhecer: #1 A ultima canção


É preciso ouvir a última canção
Antes do amanhecer.
Ouvir o fim da noite
ao findar do uivar
                                  dos lobos.
não é possível fugir de si mesmo.
E o si mesmo é um animal disperso,
em estado hibernal, então me sinto solto de um todo.

É preciso então ser um bom ator,
Numa peça enorme.
Uma persona desligada de falas,
É preciso ouvir o silencio...
Pois o silêncio...o silêncio é a última canção!





quinta-feira, 17 de janeiro de 2013


Escrevo sem o papel
Escrevo sem o papel
Escrevo sem o papel
Escrevo sem o papel
Escrevo       o papel
Escrevo sem o
Escrevo sem    papel
            sem o papel
Escrevo


Não há mais amor em Paris.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Publicação

Publiquei o texto "Silva" que esta no blog na revista

http://revistatrevo.com/2012/10/15/revista-trevo-1/

pura vaidade, a qualidade...

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Tropicum et Deserta


"Não se muda a história com lágrimas"
"Quando todos pegarem em armas, todos pegarem em armas, até mesmo gente como você"
"Gente como nós, burgueses, fracos, mais eu assumo os riscos, eu assumo os riscos"
"Minha Consciência, Minha consciência está aqui no momento da verdade, na hora da decisão, na hora da luta, mesmo na certeza da morte"
"Não precisamos de herói"
"Precisamos resistir, resistir, eu preciso cantar, EU PRECISO CANTAR".

"Não é mais possível esta festa de medalhas, este feliz aparato de glórias, está esperança dourada nos planaltos, não é mais possível essa marcha de bandeiras, com guerra e cristo na mesma posição, oh assim não é possível, a ingenuidade da fé, a impotência da fé."Glauber Rocha - Terra em Transe (1967)


sexta-feira, 2 de novembro de 2012


O cortar das hélices no ar morno da primavera faz ao homem um sentido brusco de sua solidão, um tédio corriqueiro, demasiado talvez. Não há homem que não esteja só, a tudo alucinações, a tudo amores platônicos, amores que se possuem e se despreza. Ao desejo de ser rejeitado cria-se poemas, a permanência cria-se filhos e a compactuação diletante do tédio completo na noite vermelha do enfado universal e tropical.

               
Tédio
                Escorre
                                               Amor Bruto
Se perde
                               Na pior noite
No melhor dia

Amor
                Persona
Non Grata
Quem quer amor
                Quem quer amar?
O sexo delimita tudo?
                É preciso do que afinal?
               

                Quem quer falar?

                               FALAR FALAR FALAR
                               FALAR OUVIR FALAR
                               FALAR FALAR FALAR
                              
                               NADA FALO FALO FALO FALO FALO FALO NADA
                               NADA FALO FALO FALO SEXO FALO FALO NADA
                               NADA FALO FALO FALO FALO FALO FALO NADA
                               

In einem Jahr mit 13 Monden



Nesta película, Rainer Werner Fassbinder faz uma Ode se é possível, a falta de vigor, ao desespero e a morte. Tudo se relativiza , o eu, a família, a pátria até mesmo o amor.

O filme tem uma linearidade que se põe no fluxo de mostrar o personagem, sua vida, o local em que vive, superficialmente. Vemos de inicio um pobre transexual, como tantos marginalizados. Contudo, ao tempo o diretor vai adentrando no personagem, e adentrando na própria existência humana.

Vemos no inicio a história de Elvira/Erwin(Volker Spengler). Seu passado comum de um Alemão do pós-guerra, que vai a escola, arruma uma profissão, se apaixona, casa-se tem um filho . Contudo aqui a história parece se desconstruir do comum, assim como um Kafka que escreve um ser preso em si em um mundo medíocre e ilógico, Fassbinder debate-se o homem e suas construções sexuais, políticas, materiais, filosóficas.

Após o diálogo que ocorre em um matadouro de um frigorifico, onde é mostrado o abate de vacas, sendo degolado e o sangue jorrando pelo chão sujo enquanto o personagem até então um simples travesti, sem força e potência de existência aparente conta sua história. De que era um açougueiro, de que amou e teve uma filha, mais que por um amor largou tudo e fez uma operação de sexo, retirando o pênis.

O filme vai se encaminhando não obstante, do personagem e seu inconsciente. A cena de uma televisão ligada passando o discurso de Augustin Pinochet em 1978, uma cena de amor possivelmente francesa e uma cena do próprio Erwin/Elvira no seu quarto com seu amante da uma mudança substancial. Os personagens agora vão se encontrar em um quarto, luzes de vela, um homem em um espelho fosco como uma maquina levanta supinos, uma outra persona começa a falar sobre a vida, sobre a loucura, como não há saída, como estamos presos em corpos que nada significam, diferentemente do pensamento de que o corpo é a expressão da alma.

Em seguida o personagem vai a um convento conversar com uma freira, ela conta o passado de Elvira/Erwin. Foi tido por um descuido da mãe, o pai tão pouco queria saber do filho que foi jogado em um orfanato, lá ele descobriu a mentira, os jogos entre os homens, as máscaras necessárias para a sobrevivência. Poderia não apenas ser um convento de órfãos, mais uma escola comum onde dezenas de milhares de crianças foram todos os dias se tornarem cidadãos. Estas famílias podem ser também até mesmo as de “boa índole”, que transformam o animar em homem através da cultura parafraseando Immanuel Kant.  Este diálogo e tenso, carregado, aqui os personagens estão adentrando na superfície, na história conhecida, naquilo que conversamos e contamos diariamente em nossas vidas para amigos , familiares. Há uma ruptura no ritmo, agora o filme começa a apresentar um debate filosófico e político maior.

A peregrinação continua, Elvira/Erwin vai a um prédio conversar com sujeito chamado Anton Saitz [Gottfried John]. Um grande capitalista de Frankfurt. A conversa é sobre uma entrevista que ela deu em uma revista contando seu passado, sobre seu amor por ele, como ele construiu seu patrimônio de forma ilícita, etc. Entrando no prédio temos uma mudança, agora como entrando em um campo de divagações em que cada corredor e  sala representasse alguma coisa, medo –cena do tiroteio - , o humor ou inveja ou egoísmo – mulher rindo na fresta da porta – que faz lembrar muito o processo de Kafka .

Enquanto ela sobre este prédio, ela para em um andar abandonado, numa saleta ela em um canto vê um homem entrar, preparar uma corda, amarrar em uma viga, ela pergunta “você vai se suicidar?” Calmamente o personagem explica que o mundo e uma formatação do destino em que pese a miséria, a angustia e a morte, a vida é uma impotência, um julgamento final. Suicidar-se é uma potência frente a vida, não porque foge das dores e angustias, mais porque nega o prazer, nega como se deve dar a existência da vida, logo supera o destino. Isso não significa a vontade de viver. É um trecho realmente forte em que pede uma analise profunda do caminho da vida, o sentido e a moral ocidental.  Camus, Sartre, Sabato, os fenomenologistas, todos tentaram compreender ou dar uma resposta a esse “mito de sísifo” como escreve Camus, nada parece ser possível; Para Bergman é o amor, que é uma construa, que é o que o personagem Erwin/Elvira pede “só pedi um sorriso diário”. Tudo se desfalece, tudo é uma vontade necessária.

O personagem continua subindo o edifício e finalmente chega ao andar de Anton Saitz, o homem que ela busca para suas respostas e indagações. Nesta saleta ela trava relações um segurança,e em várias salas, que diametralmente dão uma sensação de vertigem, de aprofundamento na mente humana. Ela finalmente está a frente com Saitz, o seu grande amor , indivíduo. Este relembra uma dança infantil. Seu passado em comum, quando jovens trabalharam juntos, Elvira/Erwin se apaixona por ele mais nunca disse diretamente.  Eles vão para sua casa; Lá ele encontra sua companheira prostituta dormindo na cama, Saitz começa a se relacionar sexualmente com ela, Elvira que estava na cozinha preparando o café se sente atordoada, sai à rua; Procura sua família, sua ex-mulher e filha, quer reconstruir um laço familiar, um escape, a solidão é terrível, o engodo; Estas o renegam “já é muito tarde”. Procura então um casal de amigos, um psicólogo que subindo uma escada decanta a história contemporânea da Alemanha, os traumas da divisão, uma metáfora onde todos estão errados, todos foram culpados pelo nazismo e pelo comunismo, ninguém possui salvação, todos são homens afinal. Eles também após se encontrarem com Elvira/Erwin na entrada de sua casa negam ajuda, “amanhã preciso acordar cedo para dirigir”; Um toca disco soa  as memórias de Elvira/Erwin, uma consulta com o Psicólogo “A felicidade não existe, só a busca, e é isso que é excitante”. “Se Fosse Adenauer libertaria os prisioneiros em Moscou”, sobre os prisioneiros alemães presos pela URSS durante a guerra que foram trancafiados nos Gulags até a morte de Stalin em 1956, poucos saíram com vida. Aquela ela admite sua fragilidade, seu amor fátuo, de como viveu pelos outros e nunca por ela mesmo. A potência que não significa viver, e sim morrer. É isso que ocorre no fim do filme. Como se não houvesse volta, como desde o começo soubéssemos que é a única escapatória, em um mundo opressivo e sujo como em um romance de Franz Kafka. A morte é a liberação final e necessária. A dignidade humana.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Monkey Gone to Heaven II


A prateleira estava repleta de discos; Do teto ao piso haviam milhares de compactos, lps, fitas e outros mecanismos de memória humana.  J.K. reuniu alguns, esta noite iria realizar uma festa na casa de um amigo, o G. ; Colocou na bolsa os discos Moon Safari do Air ,  Young Team , Mogway, Hormogenic Björk; Colocou dois livros de poesia, um litro de vinho chileno que havia guardado, dois maços de cigarro importado, maconha. Saiu.

Nessa noite nada podia importar muito, o clima estava resfriado, nada que incomodasse muito. A casa de G. não era muito longe de sua casa mais teria que esperar uma condução; Fumou dois cigarros enquanto esperava o ônibus, em trinta minutos estava na casa de seu amigo.

Já estavam algumas pessoas, bebiam desenfreadamente, fumavam e ouviam rock pesado, todos queriam viver como se fosse a última noite possível. Antes de dizer qualquer saudação retirou o vinho a bolsa, e começou a se aturdir com a situação. Naquele momento único que duraria algumas horas, uma epifánia deslocando-se brutalmente no tempo.

Conversavam, se drogavam, o mundo se cumpria, os desejos e sonhos se expandiam, com a sensação do arrocho, da perda.  O universo em desintegração atômica não interessa, as morais, os valores. A convivência se faz pelo riso, oposto do medo. A comedia é o desnudamento, todos estavam nus desde há muito. Sobrava rastros de uma época perdida.

[pausa]

Pixies, Metálica, Kant e Voltaire.

[pausa]

Pensamento: Delírio da solidão compartida. A força que esvai. Quer busque alguma utopia se mesmo a distopia há desanimo. Somos a pior geração desde quiçá o protestantismo. Não queremos nada e não damos nada. Consumimos pétalas em vestidos azuis, o tabuleiro e o talude da consciência conscienciosa.

Devastação do tédio , álcool embrutecidos. Sexos ativos, peitos e bundas, peitos e bundas, peitos e bundas e barrigas e narizes, e  tédio. ZIIIiiIXIXIXIXizizzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz.......


Este macaco vai para o céu.

Monkey Gone to Heaven I

 Este macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céuEste macaco vai para o céu

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Bonsai

Vou podando meu bonsai de forma precisa ou desconcertante enquanto atravesso a ilhota pelo atlântico sul azul de capa azul.

Subo o talude do continente, ou planalto ou continente, ou américa do sul, o livro continua com capa azul.

O sol fecha-se no escuro, no noturno, a letra é noturna; o livro.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012


Os armênios estão queimando;

A bomba explode na área norte de Erevan, fumaça cinza com estilhaços voam sobre os Cáucaso ao longe em rodopio.  O exercito verdes fusco marcha e explode. Não há homens em pé, todos correm.

A neve cai sobre o Cáucaso, Erevan não verá mais a Orquestra Nacional tocando Beethoven com aqueles 10 violinistas que já estão indo a campos jogados com  suas harpas pré diluvianas. Destruídos pelo pé amassado na violência desconcertante do erro que é a história dos homens.

A neve continua a cair sobre o fogo, sobre o sangue duro, sobre as ruas de pés pré-românicos. Arcabouço da morte, arcabouço da gênese destruidora e conquistadora. Cai a arca e não se ouvem mais Beethoven por alguns milhões de espíritos que se rejubilaram pelo amor que possuem.

terça-feira, 5 de junho de 2012

O conto perdido de Borges


O conto perdido de Borges

Prefácio dos caminhos que se bifurcam , se encontram ou contratam advogados para divisões de bens.

Nota do Editor:
Este conto Borgeano de pouco mais de uma página é sobre Makulêlitê e a independência teatral de Uganda do sul, ou do norte, ou os dois ao mesmo tempo dependendo da hora do dia. Foi escrito em Buenos Aires no verão de 1975. Contudo como ele estava sofrendo de cegueira, deixou cair seu leite achocolatado predileto em cima dos manuscritos e por isso pensou a vida toda que fosse na verdade estas folhas fossem uma bíblia marrom unidimensional que é infinita e nunca acaba apesar de ele ter certeza que acabasse. Se por ação algum personagem ou local tiver alguma relação com a vida real, e particularmente com a mulher do leitor, é melhor você perguntar agora para ela o que ela estava fazendo em plena áfrica subsaariana entre às 9 e as 12 horas.


O Rei Makulêlitê convoca todos os dozes chefes de tribos de Uganda mais o Sr. Woo dono da Lavanderia, para combater os colonialistas Britânicos ou Ingleses, ou o que vier primeiro. Ele diz que todos devem agir normalmente pelas ruas e campos, contudo na hora do chá das cinco quando os soldados se prepararem para tomá-lo. Os habitantes devem começar a cantar O II ato das Walkyrias de Wagner, Os ingleses não aceitaram tal atitude grotesca dos habitantes e resolveram abandonar o país e então seremos livres!
                Aqui aparece Vatikâta, chefe de umas das tribos e pergunta que caso o plano de errado os ingleses ficaram revoltados e nos atacaram fortemente destruindo nossos parquinhos de diversão. Makulêlitê então age fortemente e diz que caso o plano não de certo, é melhor começarem a ensaiar o plano dois, que é dançar salsa e merengue deixando os ingleses atordoados. Afinal a dança tem paços infinitos que se encontram ou com o pé ou com outro passo e assim sucessivamente como O baile anual de dança de da Babilônia.
                Tudo então foi orquestrado para que nada ocorresse fora do previsto, contudo Vatikâta havia feito um acordo secreto com o inglês General Ian Shitrey que dominava todos os domínios inomináveis do gabão, Uganda e qualquer outro país que aceitasse credito ou debito. Nessa troca o General Shitrey ofereceu para o traidor Vatikâta a coleção completa dos discos dos Beatles e uma passagem sem volta para as ilhas Samoa para sua cinco esposas que gastavam toda sua produção de cacau em roupas de Grife.
                Chegou-se então o dia, como era esperado às cinco horas em ponto os soldados britânicos iam tomar seu chá quando em segundos eles colocam fones de ouvidos e começam a perseguir qualquer cidadão que tivesse um violino afinado ou uma mulher muito chata para ouvir Wagner. O plano falhará é o Rei de toda Uganda Makulête fora preso. Dias depois no quartel dos colonos ingleses na cidade de Mbale ele foi posto no paredão de fuzilamento, de olhos fechados pediu a Deus qual o sentido de sua existência da terra. Ouviu os disparos, quanto o tempo parou, e Deus veio até ele e mostrou o porque havia vivido estes anos todos a frente do seu povo, ele viu a casa e o carro que havia comprado, além da casa de praia na Guine Equatorial, também viu a fatura do fim do mês, então percebeu que na verdade essa fatura se repetia infinitamente, é que todo mês ele devia pagar, e pagando ele então compreendeu o sentido da existência humana, agradeceu a Deus, que disse que lhe enviaria o resto do curso de como morrer e viver eternamente bem com as contas em dia pelo correio celestial”.

[O resto da história como dito a cima está borrada com achocolatado tipo baunilha mais aqui possivelmente termina a história, ou talvez ela não tenha começado, ou talvez você não existe e isso só sirva para uma tese de doutorado que também não existe em uma academia que não existe em um plano real onde Deus é dançarino profissional na televisão aos domingos].

sábado, 5 de maio de 2012

Identidade Silva



Os olhos do pai diziam: "Como é bonito! Como é bonito! Parece que todo o ouro do pobre mundo veio parar nessas paredes." Os olhos do menino: "Como é bonito, como é bonito, mas é uma casa onde só entra gente que não é como nós." Quanto aos olhos do menor, estavam fascinados demais para exprimir outra coisa que não uma alegria estúpida e profunda.
                                                                                              XXVI. Os olhos dos pobres

Apesar da temperatura acima de 30 graus Celsius, e da umidade que lhe fazia sentir um incomodo em cada poro do seu corpo, se vestia de forma clássica. Uma camisa social branca, calças  azul, sapato de couro negro de bico fino, além disso usava um cinto de couro marrom e uma gravata fina ao molde italiano, muito justo. Sentado em uma poltrona lia as ficiones de Borges; Ao lado em um criado mudo uma pilha de livros das quais podemos indicar um exemplar de Inocência do Visconde de Taunay, Dom Casmurro de Machado de Assis, além desses dois exemplares uma versão traduzida em português brasileiro de J.-K. Huysmans, Às avessas.  Talvez este último livro tenha significância para nosso personagem.
                A começar por seu nome João Divino Silva. Pela suas origens de ameríndio, afro-americano e português desterrado. Queria ter sangue irlandês, escocês, ou ao menos ter uma eugenia aristocrática Bourbon. Desejava um nome literário, como Goethe, Flaubert ou Proust, ser peça única universal com seu nome, suas origens, origens que dizem muita coisa, que transformam um nome comum como Borges em sua ascendência militar hispânica criolla e Inglesa em algo superior. Silva, apenas Silva. Nascido em um país de 200 milhões de Silva. Divino então só lhe recobrava sua infância medíocre de classe média baixa em um bairro comum de sua cidade nos tristes trópicos; Divino de fato era seu pai, um pequeno comerciante. Podia ser ele um Barão, Barão de Toulouse , ser ele assim um aleijado como Toulouse-Lautrec não faria diferença alguma. Sendo de classe média ainda aceitaria até mesmo nascer como um Roth , Bellow ou Lewis em um subúrbio americano de classe média, que apesar de sendo assim médio, possui uma literalidade própria.
                Todo dia para superar esse seu desejo de ser parte de algo literariamente superior, se vestia de melhor forma possível, mesmo ao calor típico dessa região do continente. Roupas sociais justas, cachimbo, livros em baixo do braço. Queria transcender a mediocridade. Construiu uma biblioteca particular com toda literatura que lhe parecesse aticista. Pensava ser um Pessoa em meio à barbárie Voltairiana, pensava até mesmo usar um leve sotaque Frances como Córtazar, ainda que nunca tenha ido morar fora, nem tenha qualquer parentesco frances.
Se tornou professor titular de Literatura Francesa da Universidade local.  Pedia claramente aos alunos. Chamem-me de Professor Divino Santos, ou Doutor Divino Santos. Se alguém o chamava de Divino, Santos ou João , mesmo que um colega professor, abominava, regredia. Queria ser um T.S. Eliot. Defendia abertamente valores compreendidos como reacionários. Ainda que dissesse ser um republicano, agnóstico,era tido contudo como alguém muito polido, em demasia; Vivemos no Brasil, não na Europa. diziam-lhe ser eurocêntrico. Divino Silva apenas se portava em concorrência com seus pensamentos de classicismo, de uma elevação que agora na modernidade se parecia perdida, ainda que possível alcançar pela hermenêutica diária. Queria apenas fugir de toda mediocridade, da pecha de ser um mestiço em um trópico qualquer. Queria a beleza robusta da Europa. Beber seus vinhos, usar suas roupas, e o principal, ter a postura de um Franco , Germânico ou Saxão!
                Assim sentado em sua poltrona pensava, pensava como Policarpo Quaresma reformador louco da nação; Que grande séria se assumissem todos um dia ao acordar uma postura clássica, se fossem em peso as bibliotecas, as livrarias para pegarem livros de Camões, Dante ou quem sabe até mesmo Schlegel dando alguma estética as praticas cristãs no país. Pensava em pessoas como ele no pais, cultas e educadas, que se respeitassem, que se encontrassem em fim do dia em cafés, discutindo grande arte entre um café e licor. Em que parecem de exibir seus corpos de forma desnecessária, ou andar de forma maltrapilha. Pensava ir à praia tomar Champagne como estivesse em um quadro de Monet ou em livro passado na riviera francesa de Fitzgerald. Tudo lhe cansava neste país. Muitos diziam na Universidade, porque não vá embora, vá viver lá na frança, leia seu Mallarmé em meio aos tísicos bichonas europeus; Sentia-se contudo um desejo de permanecer aqui, civilizar como um jesuíta estas pobres pessoas. Era preciso superar este estágio de civilização atual, o popularesco, o degenerativo, a luz e os gestos desmedidos, mostrar aos concidadãos a beleza que o mundo pode transpor a quem busca a verdade.
                Sua adolescência foi dificílima, conheceu a literatura por acaso, não se recordando o porque, sem dúvida não foi nem em sua casa, onde a cultura era paupérrima, nem mesmo na escola, onde os professores eram tecnocratas. De qualquer modo leu por acaso Dumas, Os três mosqueteiros. Lá ele viu um mundo em que a honra, a coragem, o senso estético estava acima do “ir vivendo”. Leu Balzac, Stendhal, leu Baudaliere, Rimbaud, quis por fim aprender o idioma de Molière. Leu Iluministas, literatura moderna, filosofia existencialista. Fez birra com a geração Nouvelle Romance; Como em um labirinto, foi abrindo portas, os ingleses vitorianos, Dickens, Wilde, Lord Byron. Os românticos como Wordsworth. Lendo essa poesia se encontrou com Alemães, força, polidez, determinação! Goethe, Kant, Hegel, Mann, Schiller, Lassing, E.T.A Hoffmann. Eichenforff. Passaria a tarde falando sobre estes prussianos e Alemães modernos! De lá foi um paço para os Russos, Poloneses, escandinavos! Amava a Europa, a verdadeira Europa das Grandes capitais, as médias cidades culturais que possuíam em seu intimo um Magnos Opus, onde nomes, ruas pessoas tudo era belo, mesmo o mais vulgar como um clochard nas ruas de Paris.  Foi o aluno brilhante, ainda que tenha tido seus anos universitários de crises existenciais, sempre buscou o farol da temperança.
                Com as mulheres nunca foi bom, nem com amigos, preferiu se afastar de todos que não tivessem a seu ver o modo ideal para compatibilizar com seus pensamentos. Como dito saiu logo de casa sem dizer adeus aos pais. Arrumou um apartamento no centro, perto do que pensava ser o mais ideal de seu modo de vida, forrou-o de livros , quadros, discos de Beethoven, Mozart e Chopin. Estudou a fio, sem sair de sua cidade fez o mestrado e doutorado em Frances. Em um defendeu a tese da influência de Flaubert e Balzac na literatura oitocentos brasileira. No Doutorado criou um modelo interpretativo de À La Recherche Du Temps Perdu, um paralelo com a literatura que se pretendeu fazer , ou se pretende fazer e não se consegue em nosso país. Uns disseram sobre suas pesquisas que era Eugênia literária, outros um simples fascista ou mesmo esnobe, contudo por sua sorte os membros de sua mesa julgadora eram todos francófonos exaltados como ele, nota máxima. Estudou sempre com uma bolsa, sendo assim , ao terminar os estudos viu-se em uma situação econômica perigosa, ou a dar aula em escolas de ensino colegial e de línguas gerais. Qualquer outra área era quase impossível devido a insipiência cultural de onde residia.
Por ocaso, um professor do departamento, voltando de um final de semana nas montanhas recebe uma rajada de sol em seu rosto, que o faz perder o controle do veiculo despencando de um barranco de alguns metros de altura na estrada sinuosa das serras. A universidade resolve abrir um concurso emergencial para suprir esta cátedra em pleno inicio do semestre letivo, João Divino Silva se escreve e passa em primeiro lugar, discorrendo com destaque em uma questão sobre literatura comparada de Machado de Assis e Valter Hugo.

Ele lê seu livro especialmente absorto, sente-se por um momento realizado, sente-se muito só, contudo sente avec la lettre!
Nesse mesmo dia resolve de muito bom humor ir ao café perto de sua residência, vai ler alguns poemas de Baudelaire, ver pessoas, se sentir superior, Não apenas um Silva, mais talvez o único digno desse clã generoso; No meio do caminho encontra um homem que por acaso esta vestido de forma impecável como ele, segurando um livro em baixo dos braços, quase como um espelho de si próprio. Este homem pergunta as horas ao estar próximo a João Divino Silva. Ele responde “São 16:30”; Ele vê o relógio, o livro é uma caixa de onde retire um revolver, ele impele que passe o relógio, carteira e qualquer outro objeto de valor.  Exaltado por toda brutalidade e desespero o nosso personagem João Divino Silva. Prof. Dr. Divino Silva, com seu terno impecável, um personagem saído de algum romance de Proust, sofre uma inquice, solta um gemido, começa a sentir dores. Ataca o furtador; Este dispara a queima roupa contra o homem meio afeminado . Retira os objetos do corpo de nosso herói,  joga o livro longe. Divino Silva morreu, agora talvez esteja no panteão literário de ninfas e rosas com seus companheiros.


terça-feira, 1 de maio de 2012

Identidade Kétzez



Az Égből dühödt angyal dobolt
Riadót a szomoru Földre,
Legalább száz ifjú bomolt,
Legalább száz csillag lehullott,
Legalább száz párta omolt:
Különös,
Különös nyár-éjszaka volt
.
Do alto do céu um anjo enraivecido
tocou o alarme para a terra triste.
Endoidaram cem jovens pelo menos,
caíram pelo menos cem estrelas,
pelo menos cem virgens se perderam:
foi uma estranha,
estranhíssima noite de verão.
Endre Ady. Emlékezés egy nyár-éjszakára(Recordação de uma noite de verão).

Fernando Rodrigues Kétzez. 24 anos, solteiro. Filho de Mãe Portuguesa. Pai, Sr. Kétzez. Húngaro, Ateu. Kétzez filho quer ser escritor. Acorda todo dia às 8 da manhã. Sempre tem dor de cabeça e nos olhos. Fuma um cigarro. Vai ao ginásio. Na volta toma um banho, bebe chá gelado e fuma outro cigarro. Estuda idiomas. Inglês, Frances, Russo, Italiano, Húngaro, este último já fluente na idiomática. Quer ser tradutor e professor de literatura. Quer buscar suas origens. Seu pai tem medo da modernidade. É um pária em seu país estrangeiro. Não deseja contudo voltar as terras magiares; Designe, cores, gosta do diferente. Gosta do roxo. Odeia laranja. Odeia pessoas que não respeitam a si mesmo e suas origens. Odeia seu afeto as origens, gostaria de romper tudo. Todos os outros húngaros que conheceu são filhos de Judeu. Ele é um caso parte. Seu pai saiu da Hungria porque era ateu, porque não havia estudado e tinha que descarregar caminhões com caixotes de verduras vinda do interior no mercado de Buda, Em peste conheceu um poeta com nome estranho e engraçado FERNANDO PESSOA! Surpresa, Lisboa do Tejo ancestral, decidiu largar tudo – ou nada -  aos 25 e ir para a cidade da praia mais ocidental européia; Salazar é o pequeno papa local. Não existe lugar pior para um ateu, húngaro, sem instruções básicas; Resolvi ir ao Brasil, lá poderia ler Fernando Pessoa, lá havia muita terra, iria encontrar uma comunidade húngara, iria plantar a terra de dia, a noite iria ler, quem sabe terminar os estudos. A guerra estourou. Leu Drummond “Sentimento do Mundo”, não serei poeta de um mundo caduco; Leu  Florbela Espanca “Sonetos”. Chorou, Resolveu amar uma nativa, conheceu Amália, de Azinhaga, nem as paredes confessaram suas noites de amor com um calor trôpego; Casaram, em 58 Kétzez terminará o ginásio que em sua infância não pôde; Nasceu seu filho, Fernando, em homenagem a Pessoa e à sua esposa portuguesa. Para que seu filho tenha mais sorte do que nos campos vai para São Paulo; Estuda , vê seu pai sempre lendo, entretanto sabe que ele não é um intelectual; Aos 15 começa a trabalhar no escritório de um grande jornal. Aos 18 entra na universidade de letras eslavas. Começa a publicar contos anônimos no jornal como Johannes Niëf. Um redator o descobre um dia em um canto do escritório usando a maquina de um jornalista ausente. O convida para escrever nas páginas policiais; Descobre Raskólnikov de Dostoievski. Descobre também Jair Picada. O primeiro preto pobre furado por balas com o crânio sovado e os olhos para fora das orbitas; Escreve de forma apaixonada pela miséria da moral. Ninguém é tão superior assim por coisa alguma. Aos 23 se forma. Aos 25 traduz seu primeiro livro húngaro, dois anos depois em russo; Se dedica contudo ao húngaro. Aos 26 termina seu mestrado, aos 30 o doutorado. Larga o jornal para se tornar escritor e professor na Universidade. Seu pai morre aos 32, deixa como herança além de seu nome em comum, seu amor aos magiares, um baú com recordações, cadernos de apontamentos. Revive a infância pobre do pai; Seu avô Kétzez da o ensino primário, morre contudo em uma de tantas revoluções do Império Austro-Húngaro decadente. Abandona Jászapáti , então com 18 anos e vai para Budapeste. Mora em pensões, pega a gripe espanhola. Não morre, mais ao desfalecer sendo cuidado por amigos, pede um livro , fausto de Goethe. Sua vida nunca mais seria a mesma após essa intervenção. Lê muito, trabalha muito. Mais Pessoa foi à pedra angular em sua vida.
         Kétzez filho com 33 deseja conhecer o país de seu pai. Pensa nele como as rapsódias Húngaras de Liszt. Uns pais pobre, comunista, contudo muito culto e alegre. Vai para Hungria.

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Se surpreende com Budapeste. Se surpreende com o comunismo taciturno. Se surpreende com Ägota. Poetisa, romântica pelos trópicos. Kétzez diz que em sua cidade as pessoas não são tão frias, contudo são pobres almas, deitadas por militares, que ao menos os comunistas dão educação e casas, em nossa terra todos negros morrem, fala da primeira vez que viu um homem pobre morto e teve que escrever sobre aquilo; Em um mês que no inicio seriam uma semana, se casa com a poeta para que ela possa vir morar no Brasil. Faz pós-doutorado na Alemanha, é convidado para dar aula em Frankfurt. Aceita. Vai morar com sua esposa, seu filho nasce, ele já tem 38. Aos 45 resolve voltar ao Brasil, quer que seu filho sinta alguma identidade. Sua esposa morre no parto da segunda filha. Homenageia de Amália Espanca Kétzez. Seu filho se chama Carlos, por Drummond. Este aos 15 tem seu primeiro coma alcoólico. Aos 20 larga duas faculdades, uma de medicina e outra de economia. Um dia lê um poeta húngaro, Andre Ady. Diz que vai morar na Hungria, país que estava se abrindo dos anos de comunismo. Após dois anos consegue cidadania Húngara. Entra na universidade de Eotvos Lorand, no departamento de língua portuguesa. Aos 26 se forma, faz mestrado e doutorado. Conhece uma portuguesa que faz farmacologia; Ela conhece Ady, aos 30 anos eles se casam. Seu pai morre sem nunca ter visitado o filho depois de ele ter ido para Hungria. Ele chora. Le Ady, bebe a noite toda. Ele diz que sua raiz não significa nada, pois seu choro impregna a terra inteira.


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